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2019 está apenas começando e talvez nem imaginamos o que os próximos meses nos reserva. Segundo Celia Hannon, diretora de explorações da Nesta, organização focada em inovação, “as previsões deste ano abrangem tecnologias e tendências que antes seriam descartadas como ficção científica, mas agora estão prontas para serem aceitas pelo público geral.” A executiva ainda completa, “as principais questões que atravessam as previsões deste ano são quem se beneficia ou perde com essas inovações e se é possível redirecionar seus caminhos, antes de se tornarem o ‘novo normal’.” No texto de hoje, dividido em duas partes, o Tellus reúne cinco das dez previsões da Nesta e como esse “novo normal” pode impactar o nosso cotidiano.

1. Robôs advogados tornam os serviços jurídicos mais baratos e acessíveis

No século 21, praticamente todas as profissões serão revisadas. Enquanto Google, Salesforce e Oracle aceleram e transformam as vidas nos escritórios, 2019 deve ser o ano que a rodada de automação chegará ao setor jurídico.

Segundo a previsão da Nesta, “a lei não é apenas uma parte crucial de uma democracia estável, é um negócio de vários bilhões (…) E mesmo que cada país tenha suas próprias leis, (o setor jurídico) também é um negócio de exportação.” É comum encontrarmos escritórios globais que atuam com clientes nas mais diferentes jurisdições.

A inteligência artificial já virou realidade em alguns escritórios. No Brasil, a plataforma Watson, da IBM, já é usada como base para o assistente virtual da Urbano Vitalino, uma empresa de serviços jurídicos de Recife, que usa a tecnologia para auxiliar os advogados em atividades repetitivas. Nos EUA, a Baker & Hostetler usa inteligência artificial para buscar jurisprudências em casos antigos e dá dicas para advogado. Ainda nos EUA, o DoNotPay, um robô do Facebook Messenger, ajuda as pessoas a contestarem multas de estacionamento, obterem reembolso por voos atrasados, entre outras tarefas simples.

Em uma escala muito mais, no eBay, uma das maiores plataformas de e-commerce do mundo, mais de 60 milhões de disputas são resolvidas todos os anos por meio de uma plataforma online e processos automatizados.

2. Financiamento aleatório para inovação

Incentivar inovação é difícil porque muitas ideias parecem irem contra a lógica. Veja a vacina, por exemplo, a ideia de infectar uma pessoa deliberadamente para protegê-la pode parecer loucura, até que você vê funcionando e entende o porquê do processo. Segundo a Nesta, em 2019, as organizações começarão a experimentar uma nova abordagem – o financiamento de pesquisa alocado aleatoriamente.

Mesmo com a existência de diversas metodologias, um dos grandes desafios no investimento da inovação é que é demorado. Isso faz com que muitos pesquisadores percam o timming (prazo) ou talvez nunca consigam obter o investimento necessário. Outro desafio está na maneira pelo qual a pesquisa é financiada, fazendo com que ela possa sofrer inclinações tendenciosas ou preconceitos. Segundo o The Guardian, pesquisadoras recebem menos recursos do que os homens e, de acordo com relatório da Nesta, existem pesquisas que são realizadas em alguns locais apenas em detrimento de outras.

Um sistema alternativo para escolher quais projetos financiar está cada vez mais em discussão dentro da comunidade acadêmica. A ideia é usar um sistema parcialmente aleatório, onde as propostas poderiam ser divididas em três categorias – uma categoria de topo, ou seja, que normalmente recebem financiamento; uma categoria de fundo, que nunca recebem financiamento; e uma categoria intermediária, onde o financiamento é atribuído por sorteio. Um processo como este seria mais rápido, liberando tempo para pesquisadores e financiadores, além de ser mais justo.

3. Dados do seu intestino em troca de informação

O corpo humano é composto por cerca de 30 trilhões de células, mas o número de células bacterianas em nosso intestino superam as do nosso corpo em um fator de 10. A comunidade científica tem observado a importância desse microbioma, pois – atualmente – ele é relacionado com uma série de condições e doenças, do autismo a obesidade. Pequenas mudanças neste microbioma, seja por antibióticos, dietas ou região geográfica, podem afetar o peso, a probabilidade de doenças e, até mesmo, fatores psicológicos.

Essas descobertas estão começando a dar origem a todo um campo de saúde derivado do microbioma. O American Gut Project, por exemplo, é o maior projeto de pesquisa de microbiomas do mundo. Iniciado em 2012, ele é um sistema para coletar um grande conjunto de dados em torno do microbioma. Usando o conceito de ciência cidadã, os participantes doam dados dos seus intestinos (por meio de um kit vendido no site da fundação responsável pelo projeto) e, em troca, recebem insights sobre o seu organismo comparado com o restante dos participantes. Os primeiros resultados do projeto foram publicados este ano na revista mSystems e revelam novas relações entre saúde, estilo de vida e dieta.

4. Uma revolução nas tecnologias assistivas

A primeira cadeira de rodas motorizada, criada pelo relojoeiro paraplégico Stephen Farfler, foi confeccionada em 1665. Mas, foram necessários mais de 300 anos para que as primeiras cadeiras motorizadas fossem produzidas em massa. Segundo a Nesta, “a história nos mostra que, se você quer que uma tecnologia se desenvolva rapidamente, alguém precisa pensar que eles ficarão ricos desenvolvendo-a. O problema com a tecnologia assistiva é que esse raramente é o caso.” Entretanto, isso deve mudar consideravelmente em 2019 (e nos anos a seguir).

O impacto da quarta revolução industrial irá inundar a tecnologia assistiva. Tornar os produtos do mercado de massa mais fáceis e mais intuitivos de usar beneficiará a todos. Além disso, a ascensão da Internet das Coisas fará com que seja possível capturar e analisar dados com o objetivo de melhorar a vida de todos.

5. Vivendo com superbactérias

“Em 2019, todos conheceremos alguém com uma infecção resistente a medicamentos”, afirma Caroline Purslow e Daniel Berman, ambos da Challenge Prize Center, da Nesta. A previsão de uma superbactéria é algo que sempre aparece nos relatórios de tendências anuais dos últimos anos, mas até o momento não se concretizou. Com o aumento dos movimentos anti-vacinas, a diminuição considerável das pesquisas na busca por novos antibióticos e o uso exagerado desses mesmos medicamentos, as chances disso realmente acontecer só aumentam.

Por mais caótico que pareça o cenário, diversas iniciativas pelo mundo já entraram em curso. A diminuição do uso excessivo e indevido de antibióticos por meio de um teste rápido e acessível para infecções bacterianas. A implementação bem-sucedida de tais testes significaria que as infecções poderiam ser tratadas mais rapidamente, o uso desnecessário de antibióticos seria evitado e as pessoas receberiam um tratamento mais eficaz.

Créditos: Imagem Destaque – Por Golden Sikorka