O que torna uma cidade habitável?

Alguns elementos tornam uma cidade desenvolvida mais dinâmica, organizada e agradável para se viver e investir. São muitas pequenas coisas em comum: as pessoas podem sair e passear; metrôs e ônibus circulam no horário; todo lixo é coletado; as estradas não estão (muito) congestionadas; os elevadores funcionam, serviços de abastecimento de água e energia são acessíveis, confiáveis ​​e seguros; todo ambiente construído complementa e trabalha juntamente com o ambiente natural.

Porém, estes elementos não devem ser vistos como componentes distintos e isolados de uma cidade ideal. De fato, todos fazem parte de um ecossistema bem maior e mais abrangente – chamado de “total asset management” ou gerenciamento total de ativos, como é conhecido na linguagem da engenharia.

A abordagem macro de gerenciamento de ativos para a construção de cidades habitáveis ​​abrange três áreas principais: a infraestrutura física e social de uma cidade, os edifícios que ela possui e/ou administra; o ambiente natural e seus arredores, como áreas verdes de propriedade pública, florestas, rios, lagos e o próprio ar; e o patrimônio histórico e cultural que pode ser promovido para gerar renda e emprego.

Todas as três categorias precisam ser incluídas nos planos de gerenciamento de ativos para as grandes cidades.

A adoção desse método durante a fase de planejamento pode garantir que a cidade seja resiliente – com serviços funcionando regularmente e sem interrupções – e evitando problemas como suspensões de serviços, ruas congestionadas, bairros inseguros, espaços abertos desorganizados e skylines marcados pela poluição atmosférica.

O gerenciamento total de ativos é muito importante, pois esses ativos são à base da produção de uma economia. Os edifícios, por exemplo, são mantidos pelas empresas, a fim de abrigar a infraestrutura que elas dependem para administrar suas fábricas e distribuir seus produtos, enquanto os ativos naturais são aqueles que fornecem as matérias-primas e absorvem os resíduos da produção.

O gerenciamento eficaz dos ativos envolve a necessidade de um equilíbrio de custos, oportunidades e riscos de acordo com o desempenho desejado, a fim de atingir os objetivos da organização proprietária: a cidade e seus cidadãos pagadores de impostos. O uso de técnicas de gestão permite que uma cidade entenda e direcione as necessidades e o desempenho de ativos em todos os níveis de seus sistemas. Elas programam abordagens analíticas para gerenciar um ativo ao longo de seu ciclo de vida – como na economia circular – começando com a demanda inicial, através de seu uso, até sua reforma ou descarte. Além disso, envolve a tomada de decisões corretas e a otimização da entrega de valor para minimizar todos os custos do ciclo de vida.

Isso pode tornar uma cidade não apenas mais funcional, e sim mais resistente e econômica, já que um trabalho preventivo de danos é geralmente mais barato (e mais desejável) do que soluções emergenciais. O desenvolvimento e a implantação de abordagens de gerenciamento preventivo baseadas em avaliações de risco na condição de complementar a criação de perfis urbanos pode garantir uma operação e manutenção contínua dos ativos. Isso também permite a conformidade com os padrões de planejamento, projeto e construção, bem como atender a todos os requisitos regulamentares para o desempenho do ativo em longo prazo, para uma prestação de serviços regular e eficiente.

Resiliência é a capacidade de um sistema suportar tensões e choques, como variações e impactos induzidos pelas mudanças climáticas ou grandes desastres, mantendo sua forma e função. A resiliência das cidades depende, portanto, da capacidade de manter os ativos essenciais e garantir o acesso a serviços e funções que possam atender às necessidades dos cidadãos e das empresas.

A má gestão de ativos, por outro lado, tem profundas consequências humanas, como, por exemplo, a falta de manutenção causar uma falha no abastecimento de água. Isso pode levar ao racionamento, pois fontes alternativas de água podem estar impróprias e contaminadas, e as revisões do sistema para uma correção podem levar muito tempo. Nesse caso, o ativo falhou com as pessoas devido à sua má administração. A gestão total de ativos, em vez disso, direcionaria um objetivo claro, alinhado com a visão da população e da cidade. Isso incluiria um inventário abrangente da base de ativos; estado atual dos ativos, como sua condição física; uma avaliação do custo financeiro e de reposição; uma avaliação do ciclo de vida; e resultados esperados de serviço por meio de medidas de desempenho, metas e cronogramas, incluindo a previsão de demandas futuras.

Em resumo, trata-se de um plano de ação para manutenção, reparo, substituição, descarte e expansão de ativos, incluindo atividades relacionadas a eventos inesperados. Por exemplo, o sistema de abastecimento de água de uma cidade pode ter várias funções além de apenas fornecer água, como a instalação de barreiras e “piscinões” de contenção para águas de enchente durante tempestades, ou mesmo um lago artificial para recreação com espaços verdes. Suas capacidades e áreas adjacentes precisam ser mantidas em conformidade, caso possam ocorrer expansões oportunas. O envolvimento da comunidade em sua manutenção também é parte importante de um plano de ação.

O lago Sukhna, em Chandigarh, na Índia, é um reservatório no sopé no Himalaia, e que serve a múltiplos propósitos. O lago de três quilômetros quadrados foi criado em 1958 pelo arquiteto francês Charles-Édouard Jeanneret, conhecido como Le Corbusier.

O lago fazia parte do plano diretor da cidade e pretendia inspirar “o cuidado com o corpo e o espírito”, represando um fluxo sazonal de águas das colinas de Shivalik. A administração da cidade, juntamente com o Departamento Florestal, o mantém adotando uma abordagem abrangente de gerenciamento de captação. O assoreamento excessivo do lago é gerenciado por medidas intensivas contínuas de conservação do solo e da água, incluindo o fechamento efetivo da barragem, plantios em larga escala, construção de barragens de detenção e de verificação de alvenaria, apoiadas por etapas para conservar a vegetação.

Também são organizadas campanhas comunitárias envolvendo jovens estudantes para aumentar a conscientização. Com tudo isso, o lago é um ativo que contribui para a habitabilidade de Chandigarh, atraindo seus cidadãos para esportes aquáticos, fotografia, caminhada, ioga e exercícios. Também nutre um habitat para vários peixes e aves migratórias, como a garça azul e patos da Sibéria, e foi declarada como reserva nacional pelo governo da Índia.

As Nações Unidas sugerem que quase 70% da população mundial – ou cerca de 6,7 bilhões de pessoas – viverá nas cidades até 2050. Ásia e África impulsionarão esse crescimento. A adoção da gestão total de ativos nesta região e fora dela, portanto, tem o potencial de transformar não apenas nossas cidades, mas bilhões de vidas. Para isso, será importante adotarmos soluções inovadoras, e o design servirá como ponte para a criação de novos espaços públicos, bem como serviços que irão mover as cidades.

Leia também

  • Design de Serviços Públicos: O que o investimento social privado pode fazer por cidades sustentáveis? – Saiba mais