Impacto da agricultura urbana nas cidades do futuro

Alimentação é uma das grandes preocupações da atualidade e ponto crítico para a nossa evolução como sociedade. Segundo Sara Menker, CEO da Gro Intelligence, empresa focada em prever modelos para o mercado de alimentos e agricultura, “podemos ter um ponto de inflexão na agricultura e na alimentação mundial se as demandas crescentes ultrapassarem a capacidade do sistema de agricultura de produzir comida (…) e esse cenário pode acontecer em menos de uma década.” De acordo com Menker, o mundo pode ter um déficit de 214 trilhões de calorias por ano em 2027. No TED abaixo, Menker explica mais sobre o assunto.

A parte boa é que o mundo tem se movimentado para evitar este cenário. Parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU, “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável” é uma das metas para 2030. Já no setor privado, alimentos plant-based têm tornado-se uma das grandes tendências para os próximos anos. Carnes vegetais, mas com gosto de alimento animal, têm ganho as prateleiras dos supermercados, suprindo uma demanda de um público que já se preocupa com os efeitos da agricultura em larga escala.

Com a população mundial tornando-se cada vez mais urbana, segundo informações da UNWTO (agência das Nações Unidas e a principal organização internacional no campo do turismo, destinada a promovê-lo e desenvolvê-lo), até 2030 cerca de 60% da população mundial viverá em áreas urbanas, a agricultura urbana tem se mostrado como uma solução essencial para prover a alimentação de cidades inteligentes.

Por que as cidades inteligentes serão fatores determinantes na alimentação mundial?

Segundo dados coletados pela NASA, atualmente, em todo o mundo, mais de 80% da terra adequada para a agricultura está em uso. Se levarmos em consideração que, historicamente, 15% disso já foi destruído com as más práticas de cultivo, podemos dizer que o grande potencial para o futuro está na agricultura sem solo. Soluções como hidroponia (onde as raízes são cultivadas em uma solução nutritiva balanceada que contém água e todos os nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta), aeroponia (técnica que consiste cultivar as plantas suspensas) e irrigação por gotejamento (sistema de micro-irrigação que permite o gotejamento da água lentamente até as raízes das plantas) são algumas soluções que podem ser utilizadas no ambiente urbano.

Unido a ascensão do 5G, existe uma grande oportunidade para a criação de contratos de impacto social focados na criação de soluções inteligentes e gestão de agricultura urbana. O cenário pode ser ainda mais promissor, se levarmos em conta soluções como a Agribuddy. Criada no Camboja, país com economia predominante agrícola, o sistema cria ecossistemas entre agricultores, comerciantes e linhas de crédito.

No Brasil, a prefeitura de Campo Grande (MS), por meio do Programa de Agricultura Urbana, pretende implantar 200 hortas urbanas até o final de 2020. A ação será intermediada pela Sedesc (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e de Ciência e Tecnologia), em parceria com a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural).

Campo Grande expandiu muito horizontalmente, deixando espaços vazios urbanos consideráveis – avalia o secretário Herbert Assunção. Para ele, “esse perfil de cidade apresenta grande potencial para o desenvolvimento da agricultura urbana”. Secretário da Sedesc lembra que “é uma das missões da Sedesc promover a agricultura urbana como um todo, sempre com um olhar para o pequeno produtor, que são as pessoas que mais precisam da assistência do poder público”.

Conforme documento divulgado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a prática da agricultura urbana que compreende o exercício de diversas atividades relacionadas à produção de alimentos e conservação dos recursos naturais dentro dos centros urbanos ou em suas respectivas periferias, surge como estratégia efetiva de fornecimento de alimentos, de geração de empregos, além de contribuir para a segurança alimentar e melhoria da nutrição dos habitantes das cidades.

Em Natal (RN), o projeto de Lei 83/2019 busca inserir a agricultura urbana no contexto municipal. Atualmente, o plano diretor de 2007 define o município como um território 100% urbano, o que não contempla a realidade da cidade, já que em algumas áreas é fácil de encontrar o cultivo de hortaliças e produção de outros recursos alimentares de forma familiar, além de limitar os incentivos econômicos e sociais para as áreas.

Do outro lado do Atlântico, a capital francesa deve inaugurar em 2020 a maior fazendo urbana do mundo. Com 14 mil m², o projeto será instalado no topo do centro de exposições Paris Expo Porte de Versailles e abrigará mais de 30 espécies de plantas, além de produzir cerca de mil quilos de frutas e vegetais por dia na alta estação.

Impacto da agricultura urbana nas cidades do futuro

O espaço também incluirá um restaurante e bar, com capacidade para 300 pessoas, e que consumirá os produtos da fazenda suspensa. “O objetivo é transformar a fazenda em um modelo de produção sustentável reconhecido mundialmente”, disse Pascal Hardy, fundador da Agripolis, empresa de agricultura urbana responsável pelo projeto, em entrevista ao The Guardian.

“Nosso princípio é ajudar a promover a resiliência ambiental e econômica nas cidades do amanhã”, diz Hardy, que espera que a fazenda comece a lucrar no primeiro ano. “Se conseguirmos criar um modelo comercialmente viável, em vez de depender de boa vontade e subsídios, isso ajudará as fazendas urbanas a se tornarem sustentáveis ​​sem nenhuma dependência externa”.

A fazenda será administrada por cerca de 20 agricultores, que usarão métodos totalmente orgânicos, sem uso de pesticidas ou produtos químicos. Além disso, contará com seu próprio sistema de produção vertical, que faz uso de água encanada, sem nenhuma terra.